"A internet do hotel está lenta" é a reclamação mais comum nas avaliações de hospedagem — e a resposta automática costuma ser contratar mais megas. Às vezes resolve. Muitas vezes não, porque o problema era outro.
Este artigo mostra como fazer a conta do link, e o que mais precisa estar certo para o Wi-Fi funcionar.
O link e o Wi-Fi são coisas diferentes
- O link é a internet que a operadora entrega ao hotel. É dividido por todos os hóspedes.
- O Wi-Fi é a rede sem fio dentro do hotel: os pontos de acesso, a cobertura em cada quarto, a capacidade de atender muitos aparelhos ao mesmo tempo.
Um link enorme não salva um quarto onde o sinal não chega. E uma rede sem fio excelente não salva um link saturado. A conta abaixo é do link; a cobertura vem depois.
Faça a conta pelo pico, não pela média
A internet do hotel não é usada por igual ao longo do dia. O pico costuma ser à noite, quando os hóspedes voltam para o quarto e ligam vídeo, e de manhã cedo, quando todo mundo confere mensagens. É esse momento que o link precisa aguentar.
A conta tem quatro perguntas:
- Quantas pessoas estão no hotel no pico? UHs ocupadas × hóspedes por UH.
- Quantas estão usando a internet ao mesmo tempo? Nem todas: uma parte dorme, janta, está fora.
- O que elas estão fazendo? Vídeo pesa muito mais que mensagem.
- Quanto sobra de folga? Para não operar no limite.
Um exemplo, com as premissas à vista
Os números abaixo são ilustrativos; troque pelos do seu hotel.
| Premissa | Valor do exemplo |
|---|---|
| UHs | 60 |
| Ocupação no pico | 90% → 54 UHs |
| Hóspedes por UH | 1,8 → cerca de 97 pessoas |
| Assistindo vídeo ao mesmo tempo no pico | 35% → 34 pessoas |
| Vídeo em alta definição | cerca de 5 Mbps cada |
| Demais usuários ativos (mensagens, redes sociais) | 30 pessoas × 1 Mbps |
Vídeo: 34 × 5 = 170 Mbps. Demais usos: 30 × 1 = 30 Mbps. Total no pico: cerca de 200 Mbps. Com uma folga de 30% para não operar no limite, o hotel do exemplo pede um link na casa de 260 Mbps.
A referência de 5 Mbps por vídeo em alta definição é a ordem de grandeza recomendada pelos próprios serviços de streaming; vídeo em 4K pede cerca de três vezes mais. Se o seu público é de eventos corporativos, as videochamadas entram na conta — e elas usam também o upload.
Não esqueça o upload
Muitos planos de banda larga entregam um upload bem menor que o download. Para o hóspede a lazer, isso quase não aparece. Para quem faz videochamada, envia arquivos ou sobe fotos e vídeos, o upload apertado é exatamente o que dá a sensação de internet ruim. Na hora de contratar, olhe as duas velocidades, e também a diferença entre banda larga compartilhada e link dedicado, com banda garantida em contrato.
Divida o link de forma justa
A conta acima supõe que o uso se distribui. Sem regra, um único hóspede baixando arquivos pesados pode ocupar uma fatia enorme do link e degradar todos os outros. Por isso as redes de hotel trabalham com:
- limite de velocidade por hóspede — um plano de download e upload;
- limite de aparelhos por hóspede — uma família com oito aparelhos consome como oito pessoas;
- planos diferentes por perfil — o quarto comum, a suíte, o salão de eventos, o restaurante.
Meça antes de comprar mais megas
Quando a reclamação chega, três números dizem onde está o problema:
- Uso do link no momento: se está batendo no teto, falta banda.
- Latência: o tempo de resposta. Latência alta deixa tudo "travado", mesmo com banda sobrando.
- Perda de pacotes: sinal de link instável — a conversa é com a operadora, não com mais megas.
Se o link está folgado e o hóspede reclama, o problema provavelmente está dentro do hotel: cobertura do Wi-Fi, pontos de acesso sobrecarregados ou interferência.
Cobertura: o que o link não resolve
- Paredes grossas e lajes bloqueiam o sinal; o corredor com sinal bom não garante o fundo do quarto.
- Cada ponto de acesso atende bem um número limitado de aparelhos ao mesmo tempo.
- Salas de eventos concentram centenas de aparelhos num espaço só e precisam de projeto próprio.
Resumo
- Calcule pelo pico: pessoas × quantas usam ao mesmo tempo × o que fazem, mais folga.
- Olhe o upload, não só o download.
- Limite velocidade e aparelhos por hóspede para dividir o link com justiça.
- Meça uso, latência e perda antes de contratar mais banda.
- Link e cobertura são problemas diferentes: os dois precisam estar certos.